4 de junho de 2014

Crianças acostuma imitar os adultos

Filha de peixe, peixinha é

Crianças veem, crianças fazem. Nossos filhos são observadores atentos e nossas atitudes influenciam além do que imaginamos.

Por Ana Kessler 3/jun 14:52
Tudo o que fazemos reflete nos nossos filhos. Cada palavra, gesto e até sentimento é cuidadosamente observado, internalizado e copiado por eles. Eu já tinha vivido a fase “Mamãe, olha, não fiquei linda no seu vestido?”, em que a criança imita os pais, anda de salto alto pela casa, pés minúsculos dentro de scarpins gigantes, os meninos com bigodes falsos e nós tortos nas gravatas, fazendo todo mundo rir. Mais que uma graça, é uma gostosura perceber que somos uma referência. Mas eu não tinha dimensão do quanto uma simples alteração na (minha) rotina impactaria no comportamento da minha filha até um fato inusitado acontecer.

Desde janeiro, passei a trabalhar home office. Tirando uma ou outra reunião fora, marcada em horários em que a Bia está na escola, passo a maior parte do tempo no computador em casa. Não, eu não fico de pijama arrastando chinelas, me arrumo decentemente, visto calça, cardigã, roupas confortáveis. Mas já não faço malabarismos com o cabelo, agora adepta dos práticos coques no alto e rabos de cavalo. Tampouco subo num salto, não quero fazer barulho para a vizinha de baixo e, bem, adoro o ar de bailarina que as sapatilhas me conferem. Meus vestidos? Aguardam dias festivos para saírem do armário. Unhas? Um brilho e estão perfeitas. Maquiagem? Correm o risco de vencerem com tão pouco uso.

É a aí que entra a Ana Bia em cena. Minha filha sempre foi obcecada por se enfeitar. Não saía da frente do espelho compondo looks, combinando peças, se enfeitando. A relação com a maquiagem era tão exagerada que até me preocupava: já não queria ir à escola sem passar um batonzinho, a ponto de, após infrutíferas conversas explicando que ela era linda naturalmente, eu proibi-la e, na aula, a professora fazer o mesmo. Além de lápis e borracha, ela e as coleguinhas carregavam um arsenal de batons brilho na mochila. Onde já se viu?

Nos últimos dois anos, a coisa se intensificou. Ana Bia passou a pedir de aniversário, Natal e até Páscoa, no lugar dos tradicionais brinquedos e chocolates, produtos de make up, glosses, paleta de sombras e o campeão de insistência: as maletas profissionais com compartimentos para organizar. E tanto fez que ganhou das avós e hoje tem duas malas cheias de cosméticos que jamais vai usar, pois mesmo que viva duas vidas não dará tempo de consumir tudo.

Eu me olhava no espelho e perguntava: “A quem será que essa guriazinha puxou?”. Nunca fui de me maquiar, descobri o rímel e seu impacto no olhar há pouco tempo, sombras se usei dez vezes na vida foi muito, não sou uma boa cliente de salões de beleza, entro três vezes por ano basicamente para cortar o cabelo e fazer as unhas do pé quando há convite para algum casamento. Pelo menos era assim que eu me via. Até me enxergar pelos olhos da Bia.

Trabalhar em revistas femininas faz você receber muitas, muitas novidades de produtos. E se obrigar a testá-las. Sem perceber, minha casa se inundou com xampus, condicionadores, cremes, maquiagens e mil e um paramentos de beleza feminina que tornaram nosso lar doce lar um verdadeiro centro estético. Não à toa começamos deliciosamente a brincar de SPA, como já contei AQUI.

Foi só eu parar de habitar esse universo, plim, Ana Bia desfocou. Desligou total. Nunca mais tocou nas “maletas de ouro”. Veja bem, não estou dizendo que é errado se enfeitar, não sou contra rituais de beleza, pelo contrário, acho que toda mulher deve se agradar, se amar, se sentir bem na própria pele. O foco aqui é a nossa influência sobre os filhos, o quão poderosa é. O cigarro que você fuma, o grito que você dá, a ofensa que você aceita calada sem tomar uma atitude, tudo fica armazenado e é passível de reprodução. E de correção de rumo. Ei, ainda dá tempo!

Conversei com a Bia sobre a mudança que percebi, ela disse: “Também já tinha notado, mamãe”. E riu. Meu miniespelho estava ali, refletindo o meu sorriso. Cada pedacinho dela tem um pouco de mim. Passarei a olhar com mais cuidado minhas atitudes, meu eu. Descobrir se posso ajudá-la de alguma forma a superar alguns medos que a apavoram. Mas isso é assunto para outro post.

E você, já viveu algo assim?

Nenhum comentário:
Write comentários

Visualizações

Minhas Páginas

04

04

02

08

03

07

03

03

04

05

05












08

Tradutor

"Play Aperte Aqui"